Melancolia e um planeta chamado Justine
agosto 9th, 2011 § Deixe um comentário
Melancolia, no filme de Lars Von Trier, é um planeta que deverá se chocar com a Terra e exterminar a vida como a conhecemos.
Esse drama nos é apresentado pelos olhos de duas irmãs: Justine, uma depressiva incontrolável, e Claire, uma mulher que leva uma vida normal com o marido riquíssimo e o filho.
Perto do fim, me parece óbvio que os depressivos devem aceitar mais a morte, por não terem tanto a perder e a enxergarem como o fim de uma existência de sofrimentos. No filme, é o que realmente acontece: a depressiva Justine se mostra muito mais serena que Claire ao se deparar com a provável colisão do planeta Melancolia com a Terra.
Isso não me parece apenas óbvio. Mas, sim, coerente. Estranho seria se a depressiva passasse a lutar loucamente pela vida. E a irmã feliz desistisse de tudo com serenidade.
No entanto, os gênios como Lars Von Trier não vieram à Terra apenas para serem coerentes. Para mim, a genialidade do cineasta se mostra aqui de outra forma.
Embora não pareça, na primeira parte do filme, existe sim um planeta que extermina a vida humana. E ele se chama Justine.
Assim como na segunda parte, em que o planeta Melancolia se afasta e se aproxima da Terra, na primeira parte, durante a festa de casamento, Justine se faz presente e logo em seguida se ausenta.
Assim como o planeta Melancolia, na segunda metade do filme, cria uma linha contínua de tensão, sem deixar claro se causará o extermínio ou não, na primeira metade Justine cria a mesma tensão. Mostra-se feliz e logo em seguida triste. Aparece e desaparece. Está sempre no limiar de estragar a própria vida e a vida dos que a cercam.
O filme de Lars Von Trier, portanto, conta a história do final da existência humana duas vezes. Através do microcosmo que envolve Justine e através do planeta Melancolia. E mostra que a força dos dois se equivale a partir do momento em que Justine tem a certeza de que não há o que ser exterminado. Tanto ela quanto o Melancolia acabam, no fundo, com algo que não existe. A vida, por ser desprovida de sentido, já nasce morta.