O dia em que a Malu Mader me ligou
agosto 3rd, 2011 § 1 Comentário
Eu escrevi um livro. É curioso porque, apesar disso, não me considero um escritor. Não consigo, por exemplo, dizer “prazer, Marcelo Conde, escritor”.
Na minha concepção, para ser um escritor, você precisa ter um número mínimo de leitores e ser publicado por uma editora relativamente grande, com um editor chato analisando o seu texto.
No meu caso, não houve nada disso. Não fui publicado por uma grande editora, não tive um editor chato nem tampouco fui lido por muita gente. Mas não desisti de me tornar um escritor. Até porque a carreira que ainda não exerci já me proporcionou um momento de glória extrema.
Graças a ela, recebi uma ligação da Malu Mader. Sim. A própria. A musa da adolescência de qualquer sujeito que tenha mais ou menos 30 anos. Antes que você ache que foi trote, me explico.
Quando publiquei o livro, trabalhava na W/Brasil, agência do Washington Olivetto. E, na falta de uma grande editora que distribuisse e divulgasse meu livro, pedi ajuda à agenda de contatos do Washington.
Bom, ele conhece e é amigo de gente pra caramba, pessoas importantes e inteligentes. Pensei que não seria mal conseguir o endereço delas, colocar meu livro num envelope, escrever uma carta pequena de próprio punho para cada uma e enviar. Na pior das hipóteses, nenhuma dessas pessoas leria o livro, nem sequer a carta. Mas, tudo bem. Pelo menos eu teria tentado.
Lá na letra “M” estava ela. Malu Mader. Olhei para os lados como se estivesse prestes a cometer algo proibido e copiei o endereço. Logo depois, escrevi a carta pra ela. Dane-se ter escrito um livro. Eu agora estava escrevendo uma carta para a Malu Mader.
Coloquei o livro e a carta num envelope, e enviei pelo correio junto com dezenas de outros livros – para outras pessoas que havia visto na agenda do Washington. E o tempo foi passando a ponto de eu quase ter esquecido, heresia suprema, que tinha escrito uma carta para a Malu Mader.
Não lembro se um mês depois, ou dois, recebi uma ligação na minha mesa no trabalho. Atendi e do outro lado ouvi uma voz feminina.
- Marcelo Conde?
- Isso.
- Um momentinho que a Malu Mader vai falar
Primeira reação: olhei para todos os lados. Só podia ser sacanagem de alguém. Algum desalmado que trabalhava comigo devia estar me ligando para passar trote. Eu precisava pensar rápido. Olhei para cada um dos suspeitos, que trabalhavam em silêncio, com a pureza dos santos.
E então, a mágica aconteceu. Do outro lado da linha, ouço a inconfundível voz rouca que eu havia decorado durante a minha adolescência.
- Oi, Marcelo. É a Malu. Tudo bem?
- Oi…Oi…Tudo bem. E você?
- Eu estou ligando para agradecer. Por você ter me enviado o seu livro. Foi muito simpático da sua parte. Muito obrigado.
Nesses momentos, a única coisa que você pensa é “eu tenho que parecer inteligente, tenho que dizer algo genial, tenho que mostrar que ela não me pegou desprevenido, que eu não ia gaguejar, que minhas pernas e minhas mãos não estavam tremendo”. Pensei, pensei e algo genial me veio na hora.
- Eu que agradeço. Nunca imaginei que você pudesse ter esse cuidado com esse tipo de coisa. Obrigado mesmo por ter ligado.
Pois é. Apenas isso. Normal, como sempre. Nada além de um agradecimento burocrático. Ela disse mais alguma coisa e desligamos. O momento havia passado. E eu saí da conversa como entrei: insignificante na vida dela.
Provavelmente ela não leu o livro (até porque deve receber centenas deles e ligar para agradece educadamente por cada um), mas ela foi, involuntariamente, um dos motivos que me fazem pensar que vale à pena o trabalho de escrever um livro.
Porque, pelo menos por enquanto, escrever pra mim não tem sido libertar meus demônios, mudar a vida de leitores, ganhar o Jabuti. Escrever, até agora, foi receber uma ligação da Malu Mader.
Então é por isso que gravei um disco! Valeu, Condinho.