O prefácio do livro foi escrito por Ercílio Tranjan. Ercílio é um dos maiores publictários da História do país. Mas essa definição é absolutamente insuficiente para descrever tudo que ele é. Vivo implorando para que o Ercílio, um dia, escreva um livro. Mas ele diz que não consegue, que a escolha de cada palavra, da palavra certa para cada momento, lhe é muito penosa. Coisas de gente exigente, enfim.
Pelo menos tive a sorte de que ele tomasse coragem e escrevesse no meu livro. E tenho dito: quem não quiser ler ou não tiver paciência para ler O Mesmo, que pelo menos leia o prefácio dele. Vale por cada palavra.
Segue o prefácio.
Certa manhã, após despertar de sonhos conturbados, Gregor Samsa acordou e viu que tinha se transformado em uma espécie monstruosa de inseto.
É assim, sem rodeios e sem cerimônia, que Kafka apresenta Gregor Samsa aos leitores, em seu fantástico Metamorfose.
E foi o que primeiro me veio à cabeça quando li as primeiras linhas da história de Sebastião Aerosa, ainda na sua primeira versão, e antes que o autor a tivesse batizado de O mesmo.
É com o mesmo golpe direto, dispensando rituais e liturgias de estilo, que Marcelo Conde introduz seu personagem e o drama que você vai viver com ele, a partir daí e até a última página. Mas a semelhança fica nisso, nessa qualidade de alguns livros e autores, de envolver o leitor em poucos segundos e parágrafos. Minto. Talvez haja entre eles um outro parentesco: é a história de pessoas comuns que, de repente, e pela mão de seus autores, passam a viver uma situação, digamos, kafkiana.
Aliás, é um belíssimo e honroso parentesco. E só. Porque personagem e história, como não poderia deixar de ser, seguem caminho diverso, o seu próprio e único caminho. E aqui vem o que mais me surpreendeu na leitura deste primeiro livro de Marcelo Conde.
Desde Pirandello, acredito que personagens vagam por aí, em algum plano, à espera de alguém com talento para lhes dar vida e glória menos fugazes.
Só é preciso que esse abençoado autor tenha coragem para contar uma história, quando quase todas as histórias já foram contadas, e mais ainda para dar vida a um personagem, quando tantos já desfilaram suas sagas, seus grandes gestos, suas paixões, seus conflitos, tormentos e culpas aos nossos olhos e ao longo de séculos de literatura. Sebastião Aerosa teve o feliz destino de ter sido sonhado, certo dia ou certa noite, por Marcelo Conde. Marcelo aceitou o desafio e foi além. Absurdamente fiel ao personagem, ele nos conta a história mais banal do mundo: a história de ninguém.
Sebastião Aerosa é um garçom que, por escolha, leva uma vida simples e banal. Mas é exatamente nisso que reside a sua grandeza e aquilo que o torna diferente, único. Não é que ele seja apenas um ninguém. Ele tem a ambição de ser ninguém. É esse o seu projeto de vida e, portanto, é um homem realizado. Um desses poucos que deram sentido à existência. Um vencedor às avessas, que agride o senso comum. E, visto assim – eis aí o
Paradoxo – um homem absolutamente incomum, nem um pouco banal.
Talvez a gente possa conhecê-lo melhor sabendo – e o autor nos conta – que seu grande orgulho era ser neto do maior construtor de aviões de papel do mundo. E que, quando competiam ele e o avô, Sebastião torcia pela vitória do avô.
Outro bom momento para compreendê-lo é quando ele reflete sobre a possibilidade de acabar com a própria vida exatamente por gostar muito dela. Calma, não estou antecipando a história. Procuro apenas chamar a atenção sobre o quanto um homem comum pode ser absolutamente incomum.
Não digo que tenha me tornado um especialista em Sebastião Aerosa, mas li algumas vezes a vida dele, que, aliás, ele mesmo a viveu duas vezes.
E só agora, intencionalmente, falo da idéia mais instigante que conduz e é, mesmo, a essência do livro. Se a vida de Sebastião Aerosa é comum, o autor a transforma em absolutamente única ao dar a ele a oportunidade de revivê-la, em todos os instantes. E mais não digo para não roubar a fala que é dos outros. Aliás, que é de Marcelo Conde.
Acho que o leitor, como eu, ficará preso, da primeira à última página, à história de Sebastião Aerosa, vivendo a contradição de não querer que ela chegue ao fim, mas louco para saber o fim. Que é assim que os bons livros fazem com a gente.
Ercílio Tranjan