Chegar lá

10 02 2009

Isso é conseguir viver para sempre. E justificar para quem vier a perguntar um dia, se você fez tanto e o suficiente da própria vida a ponto de te-la tornado digna de ser vivida. Pouca gente, a meu ver, pode responder que sim. Saramago pode.

Abaixo, texto que saiu hoje no caderno dele na internet:

Sigifredo

Fevereiro 9, 2009 by José Saramago

Sigifredo López é o nome de um deputado colombiano sequestrado durante sete anos pelas FARC e que acaba de recuperar a liberdade graças à coragem e à persistência, entre outros, da senadora Piedad Córdoba, principal dirigente do movimento social e humanitário “Colombianos pela paz”. Graças a uma circunstância que parecia impossível dar-se, Sigifredo López, que fazia parte de um grupo de onze deputados sequestrados, dez dos quais foram, não há muito tempo, assassinados pela organização terrorista, pôde escapar ao massacre. Agora está livre. Na conferência de imprensa logo realizada em Cali, entendeu manifestar a sua gratidão a Piedad Córdoba em termos que comoveram o mundo. Aqui nos chegaram essas palavras e essas imagens estremecedoras. Nunca pude alardear de firmeza emocional. Choro com facilidade, e não por causa da idade. Mas desta vez fui obrigado a romper em soluços quando Sigifredo, para expressar a sua infinita gratidão a Piedad Córdoba, a comparou à mulher do médico do Ensaio sobre a cegueira. Ponham-se no meu lugar, milhares de quilómetros me separavam daquelas imagens e daquelas palavras e o pobre de mim, desfeito em lágrimas, não teve outro remédio que refugiar-se no ombro de Pilar e deixá-las correr. Toda a minha existência de homem e de escritor ficou justificada por aquele momento. Obrigado, Sigifredo.

 





Resoluções de Ano Novo

14 01 2009

Depois de 30 anos, Natal e ano novo começam a perder o sentido pra mim. Ou talvez, eu tenha começado a perder a paciência com eles. Todo ano é a mesma coisa. No entanto, o mais incompreensível pra mim é a obrigação de estar extremamente feliz na virado do ano. Ou seja, você só é considerado normal se está saltitante, comemorando a virada de um dia 31 para o dia 1º de outro mês. Mas por que? A vida de qualquer um é exatamente a mesma. Ou alguém zera tudo e passa a ter uma vida completamente diferente no tempo que separa às 23h59 do dia 31 de dezembro da 0h00 do dia 1º de janeiro?





Ian McEwan e os roteiros

17 12 2008

No momento, tento transformar meu livro num roteiro. Não é a coisa mais simples do mundo embora possa parecer, a princípio, que sim. Ora, se o sujeito escreveu o livro, talvez seja mais fácil para ele escrever o roteiro sobre o livro, certo?No entanto, não sei se a verdade é assim tão cristalina.

Ian McEwan, por exemplo, que eu considero um dos melhores – senão o melhor escritor contemporâneo – teve seu livro “Reparação” adaptado para o cinema. Se quisesse, ele poderia ter assinado o roteiro. Mas preferiu não fazê-lo. No vídeo abaixo, ele se justifica. Tem lá suas razões, eu acho.

 





Adriana Falcão

15 12 2008

Há um livro chamado “Mania de Explicação” que, estranhamente, pelo menos para mim, costuma ficar na estante de livros infantis das livrarias. Na verdade, é explicável, já que a obra parece ser o típico livro para crianças. E essa talvez seja uma de suas melhores características. Porque tira do livro qualquer sinal de que possa ser pretensioso. E, assim, Adriana Falcão faz pura poesia com simplicidade.

Separei aqui algumas partes. Mas, se puderem, comprem o livro. As explicações que não estão aqui também merecem ser lidas.

 

Solidão é uma ilha com saudade de barco.

 

 

Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue.

 

 

Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair do seu pensamento.

 

 

Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.

 

 

Cismar é quando o desejo quer aquilo apesar de tudo.

 

 

Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que devia querer outra coisa.

 

 

Ansiedade é quando faltam 5 minutos sempre para o que quer que seja.

 

 

Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.

 

 

Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas geralmente não podia.

 

 

Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.

 

 

Beijo é um carimbo que serve pra mostrar que a gente gosta daquilo.





O Tempo de Mia Couto

26 11 2008

 

Mia Couto é um dos grandes escritores em língua portguesa. Estou lendo seu último livro, “Venenos de Deus, remédios do Diabo”, lançado recentemente ao mesmo tempo no Brasil, em Portugal e em Moçambique. 

Ontem me deparei com uma passagem que eu adorei. Não pelo caráter filosófico, mas pela simplicidade e graça do momento em que um personagem se surpreende com ele próprio ao fazer a seguinte definição.

 

“Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam idéias próprias. Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com idéias. Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem idéias. Aos 40 achamos que as idéias dos outros são todas nossas. Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter idéias. Aos 60 ainda temos idéias mas esquecemos do que estávamos a pensar. Aos 70 só pensar já nos faz dormir. Aos 80 só pensamos quando dormimos”.

Não sei se é exatamente assim que acontece. Mas principalmente a definição sobre os 30 e os 40 anos eu achei genial.





Caderno de Saramago

24 11 2008

A Bravo! deste mês traz uma entrevista muito bacana com o Saramago. Embora muita gente ache seus livros chatos, tenho profunda admiração por ele. Como bem lembra a reportagem, ele é um dos poucos escritores que continuaram escrevendo com o mesmo afinco depois de terem levado o Prêmio Nobel – que acabou com a carreira de muita gente.

Além disso, enxergo nos seus livros um jeito peculiar de escrever. Parece que ele tem um conceito na cabeça, apenas uma grande idéia, uma grande pergunta e, depois, começa a encontrar milhares de respostas para esta mesma pergunta. Destas perguntas e respostas surgem seus livros. Exemplos? E se, um dia, houvesse uma epidemia e todo mundo ficasse cego (Ensaio sobre a cegueira)? E se, um dia, as pessoas simplesmente parassem de morrer (As intermitências da morte)?

Mas a entrevista me fez admirá-lo por outra razão que, até então, eu desconhecia. O Saramago mantém um blog (caderno.josesaramago.org) que atualiza quase que diariamente. E não são posts sem cabimento, nem apenas encheções de lingüiça. Fiquei muito feliz ao ver que, mesmo aos 87 anos, ele tem a vontade e a determinação de escrever diariamente. E num meio que, muitas vezes, é tão combatido principalmente pelos escritores que vieram antes da internet.

Vale muito à pena acessar o blog, de onde tirei a seguinte pérola. Divirtam-se:

Vivo, vivíssimo

Novembro 18, 2008

Intento ser, à minha maneira, um estóico prático, mas a indiferença como condição de felicidade nunca teve lugar na minha vida, e se é certo que procuro obstinadamente o sossego do espírito, certo é também que não me libertei nem pretendo libertar-me das paixões. Trato de habituar-me sem excessivo dramatismo à ideia de que o corpo não só é finível, como de certo modo é já, em cada momento, finito. Que importância tem isso, porém, se cada gesto, cada palavra, cada emoção são capazes de negar, também em cada momento, essa finitude? Em verdade, sinto-me vivo, vivíssimo, quando, por uma razão ou por outra, tenho de falar da morte…

(Saramago)





Tatiana no youtube

17 11 2008

Tatiana, a cantora que fez um pocket show no lançamento do meu livro na Fnac em São Paulo, colocou no youtube um vídeo com os bastidores da gravação de algumas músicas em conjunto com um trio de músicos do sul, o trio Interseções.

A primeira parte do vídeo está no endereço http://br.youtube.com/watch?v=wymSf4VFcM4 

Vale à pena ver. Ficou lindo.





Tom & Vinícius

10 11 2008

Sábado fui ao teatro ver a peça/musical Tom & Vinícius. Tudo parecia ser tão bom na década de 50. As pessoas pareciam sofrer mais pelo que valia à pena e, apesar disso, ou por causa disso, eram mais felizes. Não sei em que momento as coisas deram errado para a gente parar onde está agora.

Nunca mais vamos ter outra época como aquela. Nunca mais vamos ter alguém como o Vinícius. O mundo não fabrica mais aquele tipo de gente. Pra mim, fica apenas a sensação de ter, mais uma vez, chegado atrasado na festa.





Obama por um brasileiro nos EUA

6 11 2008

Daniel, um amigo meu, é brasileiro e mora em Atlanta, célebre pedaço dos EUA onde morou Martin Luther King Jr.

Daniel acompanhou, emocionado, a corrida presidencial americana desde o princípio. E acabou fazendo uma verdadeira cobertura jornalística com fotos e vídeos em seu blog.

Quando puderem, acessem midionauta.blogspot.com

Vale por cada texto, cada vídeo e cada foto.





Obama sem ala VIP

5 11 2008

No discurso do Obama, não teve ala VIP, ridícula mania brasileira. Se fosse aqui provavelmente haveria um curralzinho próximo ao palco, onde os “VIPS” brasileiros (ou da Globo, se preferirem) ficariam, mesmo se nem soubessem o que estava acontecendo ali. 

No discurso da vitória, é possível ver lá, no meio de 200 mil pessoas, Oprah Winfrey, por exemplo, mulher mais rica daquele país, absolutamente emocionada. Jesse Jackson, o primeiro negro a se candidatar a presidente dos EUA também estava lá, chorando copiosamente.

A primeira mudança que Obama poderia trazer para o mundo era essa: acabar com o curralzinho VIP no Brasil. Já era alguma coisa.