A Foto
setembro 14th, 2011 § 1 Comentário
Onze, dez, nove. Que luz é essa? Será que eu já morri? Não, não morri. Pelo jeito, não. É um flash. Será que vão me reconhecer na foto? Será que meu filho ou minha mulher vão conseguir me ver de cabeça pra baixo? Quem tira uma foto dessas?
Oito, sete, seis. Já acostumei com o vento. O frio na barriga parou. Por que eu ainda não morri? Lá em cima me garantiram que eu morreria antes de tocar o chão. Será que a foto ficou boa? Será que meu filho e minha mulher vão conseguir me ver? Espero que sim. Não. Espero que não.
Cinco, quatro, três. Vou chegar no chão. Não passou filme pela minha cabeça. Só vento, frio, minha mulher, meu filho. O diabo da foto. Será que alguém vai me ver nessa foto?
Dois, um. Saudades da minha mulher. Saudades do meu filho. Maldito avião. Não vou proteger a cabeça. Espero que seja de uma vez só. O escuro.
Zero.
(Texto publicado no especial sobre os 10 anos do 11.9 no site Jornalirismo: www.jornalirismo.com.br)
Raf Eletronics
setembro 5th, 2011 § Deixe um comentário
João, o mudo, sobe no palco do karaokê da Liberdade. 3, 2, 1.Entram os primeiros acordes de “Caça e Caçador”, de Fábio Júnior.
A letra aparece no telão sobre as imagens de vulcões chilenos e pastos argentinos. O mudo segura o microfone perto da boca, mas seu cérebro é que canta. Na platéia, apenas Alice, a surda, o escuta.
O Vaso
setembro 1st, 2011 § Deixe um comentário
Há um vaso novo aqui em casa. Hoje de manhã, assim que cheguei na sala, o vi pela primeira vez. Deve ser coisa de mamãe, que ontem de noite veio aqui. Mesmo que eu peça para ela não trazer presentes quando vem me visitar, não adianta. Ela nunca me ouviu. Nem quando eu era criança, nem quando me casei.
E agora há essa moça nova aqui em casa todos os dias. Talvez o vaso seja coisa dela. Mas por que ela me traria um vaso? Eu mal a conheço. Deixe-me pensar. Quem esteve aqui em casa ontem? Mamãe veio? Certamente. Ela sempre vem. Minha neta passou à tarde. Minha neta passou à tarde? Preciso perguntar para essa moça nova que trabalha aqui. E preciso perguntar a minha neta como pude ter uma neta se não me recordo de ter uma filha.
Bom, voltando. Minha filha passou aqui ontem, junto com mamãe. Preciso perguntar a essa moça nova que trabalha aqui por que minha neta não veio. Há tempos que ela não vem, aliás.
Quero reunir logo as três: minha mãe, minha filha e minha neta. Preciso perguntar quem deu a ordem de colocar uma moça nova aqui em casa. Ela fica o dia vendo televisão e passando um espanador na estante. Deve ser alérgica. Não, eu sou alérgica. Eu sou alérgica? Ela não sabe que eu sou alégica?
Agora mesmo ela está ali limpando a mesinha. Ué, que vaso novo é esse na mesinha? Há segundos não estava ali. Será que mamãe me trouxe esse vaso hoje, antes que eu chegasse na sala? Preciso perguntar pra essa moça nova. Aliás, fico maluca quando essa moça nova me chama de mãe.
Tomara que minha filha venha aqui hoje. De preferência com minha neta. Já faz tempo que elas não aparecem e preciso falar com as duas urgentemente. Por que elas colocaram essa moça nova aqui sem pedir minha opinião? Se mamãe fosse viva, não faria isso. Mamãe era quem realmente se importava comigo.
Espere. O que é aquilo? Há um vaso novo aqui em casa. Preciso perguntar a essa moça nova se foi mamãe quem o deixou aqui mais cedo, sem que eu percebesse.
Melancolia e um planeta chamado Justine
agosto 9th, 2011 § Deixe um comentário
Melancolia, no filme de Lars Von Trier, é um planeta que deverá se chocar com a Terra e exterminar a vida como a conhecemos.
Esse drama nos é apresentado pelos olhos de duas irmãs: Justine, uma depressiva incontrolável, e Claire, uma mulher que leva uma vida normal com o marido riquíssimo e o filho.
Perto do fim, me parece óbvio que os depressivos devem aceitar mais a morte, por não terem tanto a perder e a enxergarem como o fim de uma existência de sofrimentos. No filme, é o que realmente acontece: a depressiva Justine se mostra muito mais serena que Claire ao se deparar com a provável colisão do planeta Melancolia com a Terra.
Isso não me parece apenas óbvio. Mas, sim, coerente. Estranho seria se a depressiva passasse a lutar loucamente pela vida. E a irmã feliz desistisse de tudo com serenidade.
No entanto, os gênios como Lars Von Trier não vieram à Terra apenas para serem coerentes. Para mim, a genialidade do cineasta se mostra aqui de outra forma.
Embora não pareça, na primeira parte do filme, existe sim um planeta que extermina a vida humana. E ele se chama Justine.
Assim como na segunda parte, em que o planeta Melancolia se afasta e se aproxima da Terra, na primeira parte, durante a festa de casamento, Justine se faz presente e logo em seguida se ausenta.
Assim como o planeta Melancolia, na segunda metade do filme, cria uma linha contínua de tensão, sem deixar claro se causará o extermínio ou não, na primeira metade Justine cria a mesma tensão. Mostra-se feliz e logo em seguida triste. Aparece e desaparece. Está sempre no limiar de estragar a própria vida e a vida dos que a cercam.
O filme de Lars Von Trier, portanto, conta a história do final da existência humana duas vezes. Através do microcosmo que envolve Justine e através do planeta Melancolia. E mostra que a força dos dois se equivale a partir do momento em que Justine tem a certeza de que não há o que ser exterminado. Tanto ela quanto o Melancolia acabam, no fundo, com algo que não existe. A vida, por ser desprovida de sentido, já nasce morta.
O dia em que a Malu Mader me ligou
agosto 3rd, 2011 § 1 Comentário
Eu escrevi um livro. É curioso porque, apesar disso, não me considero um escritor. Não consigo, por exemplo, dizer “prazer, Marcelo Conde, escritor”.
Na minha concepção, para ser um escritor, você precisa ter um número mínimo de leitores e ser publicado por uma editora relativamente grande, com um editor chato analisando o seu texto.
No meu caso, não houve nada disso. Não fui publicado por uma grande editora, não tive um editor chato nem tampouco fui lido por muita gente. Mas não desisti de me tornar um escritor. Até porque a carreira que ainda não exerci já me proporcionou um momento de glória extrema.
Graças a ela, recebi uma ligação da Malu Mader. Sim. A própria. A musa da adolescência de qualquer sujeito que tenha mais ou menos 30 anos. Antes que você ache que foi trote, me explico.
Quando publiquei o livro, trabalhava na W/Brasil, agência do Washington Olivetto. E, na falta de uma grande editora que distribuisse e divulgasse meu livro, pedi ajuda à agenda de contatos do Washington.
Bom, ele conhece e é amigo de gente pra caramba, pessoas importantes e inteligentes. Pensei que não seria mal conseguir o endereço delas, colocar meu livro num envelope, escrever uma carta pequena de próprio punho para cada uma e enviar. Na pior das hipóteses, nenhuma dessas pessoas leria o livro, nem sequer a carta. Mas, tudo bem. Pelo menos eu teria tentado.
Lá na letra “M” estava ela. Malu Mader. Olhei para os lados como se estivesse prestes a cometer algo proibido e copiei o endereço. Logo depois, escrevi a carta pra ela. Dane-se ter escrito um livro. Eu agora estava escrevendo uma carta para a Malu Mader.
Coloquei o livro e a carta num envelope, e enviei pelo correio junto com dezenas de outros livros – para outras pessoas que havia visto na agenda do Washington. E o tempo foi passando a ponto de eu quase ter esquecido, heresia suprema, que tinha escrito uma carta para a Malu Mader.
Não lembro se um mês depois, ou dois, recebi uma ligação na minha mesa no trabalho. Atendi e do outro lado ouvi uma voz feminina.
- Marcelo Conde?
- Isso.
- Um momentinho que a Malu Mader vai falar
Primeira reação: olhei para todos os lados. Só podia ser sacanagem de alguém. Algum desalmado que trabalhava comigo devia estar me ligando para passar trote. Eu precisava pensar rápido. Olhei para cada um dos suspeitos, que trabalhavam em silêncio, com a pureza dos santos.
E então, a mágica aconteceu. Do outro lado da linha, ouço a inconfundível voz rouca que eu havia decorado durante a minha adolescência.
- Oi, Marcelo. É a Malu. Tudo bem?
- Oi…Oi…Tudo bem. E você?
- Eu estou ligando para agradecer. Por você ter me enviado o seu livro. Foi muito simpático da sua parte. Muito obrigado.
Nesses momentos, a única coisa que você pensa é “eu tenho que parecer inteligente, tenho que dizer algo genial, tenho que mostrar que ela não me pegou desprevenido, que eu não ia gaguejar, que minhas pernas e minhas mãos não estavam tremendo”. Pensei, pensei e algo genial me veio na hora.
- Eu que agradeço. Nunca imaginei que você pudesse ter esse cuidado com esse tipo de coisa. Obrigado mesmo por ter ligado.
Pois é. Apenas isso. Normal, como sempre. Nada além de um agradecimento burocrático. Ela disse mais alguma coisa e desligamos. O momento havia passado. E eu saí da conversa como entrei: insignificante na vida dela.
Provavelmente ela não leu o livro (até porque deve receber centenas deles e ligar para agradece educadamente por cada um), mas ela foi, involuntariamente, um dos motivos que me fazem pensar que vale à pena o trabalho de escrever um livro.
Porque, pelo menos por enquanto, escrever pra mim não tem sido libertar meus demônios, mudar a vida de leitores, ganhar o Jabuti. Escrever, até agora, foi receber uma ligação da Malu Mader.
Chegar lá
fevereiro 10th, 2009 § Deixe um comentário
Isso é conseguir viver para sempre. E justificar para quem vier a perguntar um dia, se você fez tanto e o suficiente da própria vida a ponto de te-la tornado digna de ser vivida. Pouca gente, a meu ver, pode responder que sim. Saramago pode.
Abaixo, texto que saiu hoje no caderno dele na internet:
Sigifredo
Fevereiro 9, 2009 by José Saramago
Sigifredo López é o nome de um deputado colombiano sequestrado durante sete anos pelas FARC e que acaba de recuperar a liberdade graças à coragem e à persistência, entre outros, da senadora Piedad Córdoba, principal dirigente do movimento social e humanitário “Colombianos pela paz”. Graças a uma circunstância que parecia impossível dar-se, Sigifredo López, que fazia parte de um grupo de onze deputados sequestrados, dez dos quais foram, não há muito tempo, assassinados pela organização terrorista, pôde escapar ao massacre. Agora está livre. Na conferência de imprensa logo realizada em Cali, entendeu manifestar a sua gratidão a Piedad Córdoba em termos que comoveram o mundo. Aqui nos chegaram essas palavras e essas imagens estremecedoras. Nunca pude alardear de firmeza emocional. Choro com facilidade, e não por causa da idade. Mas desta vez fui obrigado a romper em soluços quando Sigifredo, para expressar a sua infinita gratidão a Piedad Córdoba, a comparou à mulher do médico do Ensaio sobre a cegueira. Ponham-se no meu lugar, milhares de quilómetros me separavam daquelas imagens e daquelas palavras e o pobre de mim, desfeito em lágrimas, não teve outro remédio que refugiar-se no ombro de Pilar e deixá-las correr. Toda a minha existência de homem e de escritor ficou justificada por aquele momento. Obrigado, Sigifredo.
Ian McEwan e os roteiros
dezembro 17th, 2008 § 1 Comentário
No momento, tento transformar meu livro num roteiro. Não é a coisa mais simples do mundo embora possa parecer, a princípio, que sim. Ora, se o sujeito escreveu o livro, talvez seja mais fácil para ele escrever o roteiro sobre o livro, certo?No entanto, não sei se a verdade é assim tão cristalina.
Ian McEwan, por exemplo, que eu considero um dos melhores – senão o melhor escritor contemporâneo – teve seu livro “Reparação” adaptado para o cinema. Se quisesse, ele poderia ter assinado o roteiro. Mas preferiu não fazê-lo. No vídeo abaixo, ele se justifica. Tem lá suas razões, eu acho.
Adriana Falcão
dezembro 15th, 2008 § Deixe um comentário
Há um livro chamado “Mania de Explicação” que, estranhamente, pelo menos para mim, costuma ficar na estante de livros infantis das livrarias. Na verdade, é explicável, já que a obra parece ser o típico livro para crianças. E essa talvez seja uma de suas melhores características. Porque tira do livro qualquer sinal de que possa ser pretensioso. E, assim, Adriana Falcão faz pura poesia com simplicidade.
Separei aqui algumas partes. Mas, se puderem, comprem o livro. As explicações que não estão aqui também merecem ser lidas.
Solidão é uma ilha com saudade de barco.
Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue.
Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair do seu pensamento.
Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.
Cismar é quando o desejo quer aquilo apesar de tudo.
Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que devia querer outra coisa.
Ansiedade é quando faltam 5 minutos sempre para o que quer que seja.
Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.
Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas geralmente não podia.
Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.
Beijo é um carimbo que serve pra mostrar que a gente gosta daquilo.
